Durante as férias, foram devorados:


O primeiro apenas retrata a história deste italiano, que sobreviveu a Auschwitz.
E que melhor para a retratar senão o autor:
"Este livro nada acrescenta, no que diz respeito ao pormenores atrozes, a quanto já é do conhecimento dos leitores sobre o tema inquietante dos campos de extermínio. Ele não foi escrito com o objectivo de formular novas acusações; servirá, talvez, mais para fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspectos da alma humana"
O segundo, apesar de ser um romance, mostra-nos os últimos dois dias de Pompeia e toda a região da Campânia.


Acabo de ler os dois.
O primeiro é um verdadeiro Best-Seller de Vendas.
Para muitos provavelmente um horror, para outros uma perspectiva das sociedades secretas.
Julgo que é um livro que nos faz pensar e levar a questionar certas "verdades" que nos fomentaram toda uma vida.
O segundo é um extraordinário policial com uma componente histórica sobre uma Roma, que todos sabemos, nunca foi sossegada.
Tanto um como outro lêem-se de uma assentada só.
Rodrigo Guedes de Carvalho tem uma coluna numa revista de televisão chamada TV+.
Na passada semana escreveu uma crónica sobre o Ensaio sobre a Lucidez de Saramago com o título "Ensaio sobre a Vaidade".
Subscrevo-a e transcrevo-a em parte:
"Diz agora que, se o seu livro não provocar a tal polémica dos diabos, é porque as pessoas andam a dormir. Ou seja, ele será sempre genial, nós é que podemos não compreender a evidência.
Saramago sabe muito da poda. Aprendeu que isto de vender livros vai mais depressa com frases bombásticas de pré-campanha.
Saramago sabe que os seus livros já se vendem antes de se venderem. Em muitos casos para se pôr na estante a mostrar que se tem, em tantos outros para oferecer sem sequer o abrir.
O autor ganhou o gosto do método depois de receber o Nobel, e iniciar agora nova tournée, qual estrela rock, levando aos escuros cantos do País e do mundo a luminosidade do seu pensamento.
Saramago não escreve livros, escreve "provocações" como lhes chama.E se estivermos marimbando nas ditas? Ah, esquecia-me: andamos a dormir, sonsos, tontos, embriagados por esta sociedade que o autor descobriu estar totalmente "globalizada".
E como explicar à malta nova ou velha que apela ao voto em branco enquanto é candidato da CDU às europeias? Incongruência? Não, luxo de génio.
Mas das constatações mais admiráveis com que presenteia a nossa humilde condição é a certeza absoluta de que os jornalistas são hoje mera propriedade de empresas e da banca, "com uma impressionante capacidade camaleónica, mudando de cor consoante o sítio onde trabalham". Claro que quem fala assim fala porque nunca teve nada a ver com jornais, e a seguir ao 25 de Abril respeitou sempre as diferenças ideológicas dos que trabalhavam sob a sua alçada.
Enquanto todos se babam perante os panfletos, recordo Estocolmo, quando foi receber o Nobel e aproveitou para publicamente presentear jornalistas portugueses com a má educação, rispidez e arrogância que julgávamos só ao alcance de grandes empresários e capitalistas, pouco dados a terrenas solidariedades democráticas. Mas temos todos de compreender. Os génios, como se sabe, são impulsivos
Tenho saudades do "Memorial do Convento". De quando José era apenas escritor. Não vou ler este novo "Ensaio". E sobretudo não vou comprar. Não preciso de mostrar estantes ou dar prendas de anos. De certeza que a Saramago agradará esta minha resistência à terrífica sociedade de consumo."
Os azulejos que cobrem as paredes de Lisboa contam a história de uma cidade feliz. Este livro convida-nos a descobrir uma Lisboa mais secreta, onde a memória e o imaginário se sobrepõem. Este livro de História lê-se como se fosse um romance, mas permite-nos saltitar entre as várias épocas (capítulos) da cidade: rever o século XX e depois regressar aos fenícios ou às judiarias, às sedas e brocados da Rua Nova no século XVI ou ao Marquês de Pombal. No capítulo final, Sobreposições, encontramos algumas notas pessoais que demonstram bem a sensibilidade de Dejanirah Couto. Eis um extracto. "Rua Sebastião Saraiva Lima. (...) Em certos dias, o silêncio da rua era quebrado pelo assobio estridente do amolador, que passava com a sua carroça. Assim que ouviam esse som pungente, as donas de casa diziam umas às outras que vinha lá chuva. A vida desenrolava-se então em pátios interiores e escadas de serviço. Sentados nos degraus, os inquilinos falavam uns com os outros enquanto descascavam favas ou ervilhas. Antes do Natal, era aí que os perus ficavam sem pescoço, perante o olhar aterrorizado das crianças. As escadas serviam também para mandar recados, fazer os trabalhos da escola, fumar cigarros de barba de milho às escondidas, ou ler o Detective."
Desanirah Couto foi mais uma das muitas pessoas que fugiram para França por não concordarem com o Estado Novo, na sua entrevista à revistaMáxima (via Google), Desanirah explica-nos porque saiu, porque não voltou, e porque acha Lisboa uma cidade feliz. Foi com uma leitura devoradora que li este excelente livro sobre a história da minha cidade. Uma boa oferta de Natal a todos os Lisboetas, para que os mesmos, conheçam ainda mais a sua história. Uma última nota para corrigir, se é que possível a autora, os manjericos não murcham se se tocarem, mas sim se se cheirarem directamente.
Mário Rui de Carvalho no livro "Por dentro das Guerras" conta-nos toda a sua vida atrás de uma câmara a filmar guerras e catástrofes.
"...Isso não quer dizer que não tenha medo perante as situações complicadas em que me vejo regularmente envolvido...penso mesmo que é fundamental ter medo. Quando se chega ao ponto de relativizar o medo, e se tem consciência de que isso está a suceder, então é porque chegou a altura de dar um passo atrás e de proceder à reavaliação do que se passa".
"...Nos cursos de formação que tenho dado nos EUA faço sempre a mesma pergunta, e quase ninguém responde acertadamente...Numa situação de guerrilha, de combate no meio urbano, o operador de câmara vai pela rua abaixo a filmar. De que lado deve seguir, que passeio deve escolher? O auditório encolhe os ombros e eu digo, alto e bom som: é sempre do lado esquerdo...nesta actividade não há canhotos, a câmara foi feita para andar sempre no ombro direito, em caso de necessidade é possível encontrar uma porta, um abrigo...o corpo fica protegido e só a câmara é que fica exposta às balas."
"...sempre foi prática da CBS envolver naturais dos países onde estávamos no nosso trabalho".
Estas três passagens, demonstram o seu carácter humano, o profissionalismo e experiência de Mário Rui e da CBS. Quando após algumas semanas, Portugal enfrentou pela primeira vez, um situação de alto risco com dois dos seus jornalistas, eu escrevi que os mesmos tomaram a atitude de entrar no Iraque por que somos um povo de aventureiros. Mário Rui no seu livro, demonstra-nos a profissionalização de um jornalista de guerra, ele que enfrentou a guerra da Guiné de arma em punho como comando do exército português, enfrentou depois, guerras de toda a espécie, as convencionais, as de guerrilhas, e mesmo de casa-a-casa, rua-a-rua, como no Haiti. Mas, a imagem que mais me marca no seu livro é o relato da sua passagem por Armero e a catástrofe de 1985 com a erupção do Nevado del Ruiz.
"...Estou de joelhos, estou presa, o meu nome é Omarya Sanchéz, tenho 12 anos. Estou de joelhos, tenho as pernas presas, não me consigo mexer. É a minha tia, que estava comigo. Está morta e está entalada nas minhas pernas"..."Fui ver de novo a Omarya, já estavam os bombeiros a tentar tirá-la...Omarya entrou em estado de choque linfático e acabou por morrer após 36 horas de sofrimento...a mémória de Omarya ficou comigo, até hoje. Nunca mais me esquecerei de Omarya".
Na semana passada, Mário Rui tinha escrito um excelente artigo no jornal Público, ((que infelizmente não o tem na sua página online) onde falava da sua experiência e da forma como as empresas de comunicação em Portugal não têm cuidados redobrados com os seus correspondentes em locais de conflito. Fiquei ainda mais esclarecido depois de ler este livro de Mário Rui de Carvalho com a colaboração de Luís Costa.
Acabo de ler 10 histórias de amor em Portugal de Alexandre Borges.
Um livro simples, de fácil leitura onde AB narra dez histórias que possam servir de referência a uma lusa forma de amar.
AB decidiu narrar as histórias de amor de: D. Pedro e D. Inês; Luís de Camões e Dinamene; Camilo Castelo Branco e Ana Plácido; Antº Oliveira Salazar e Maria de Jesus; Vieira da Silva e Arpad Szenes; Sá Carneiro e Snu Abecassis; Paulo Oliveira e Ruth Bryden; Ernesto Sampaio e Fernanda Alves; Manoel de Oliveira e Maria Isabel; José Saramago e Pilar del Rio. Se a história de D. Pedro e D. Inês e Sá Carneiro e Snu Abecassis, muitos de nós já temos um conhecimento quase completo, é de destacar mais três casos neste livro. O de Salazar e Maria de Jesus, onde AB tenta narrar o amor não correspondido de Maria de Jesus e a forma como a empregada, a amiga, e a apaixonada de Salazar viveu toda uma vida ao lado do homem que sempre a ignorou. O de Paulo Oliveira e Ruth Bryden numa óptica sem preconceitos, onde se exprime o amor que um homem transformado em mulher, teve por um rapaz socialmente desviante(toxicodepente e prostituto), e o fez perceber que a vida não era a que vivia. Rapaz que acaba por se suicidar ao ver o seu companheiro a morrer nos hospitais. E finalmente, para mim o mais marcante, o de Ernesto e Fernanda, onde se define (se é que possível definir) o amor no seu expoente máximo.
AB narra a história de um casal que viveu uma vida feita com amor, e que após a morte de Fernanda, Ernesto espiritualmente morreu, tendo posteriomente falecido de AVC.
Um livro bastante interessante, num momento em vivemos constantemente em convulsões.