abril 13, 2004

O Ensaio visto por RGC

Rodrigo Guedes de Carvalho tem uma coluna numa revista de televisão chamada TV+.
Na passada semana escreveu uma crónica sobre o Ensaio sobre a Lucidez de Saramago com o título "Ensaio sobre a Vaidade".
Subscrevo-a e transcrevo-a em parte:

"Diz agora que, se o seu livro não provocar a tal polémica dos diabos, é porque as pessoas andam a dormir. Ou seja, ele será sempre genial, nós é que podemos não compreender a evidência.
Saramago sabe muito da poda. Aprendeu que isto de vender livros vai mais depressa com frases bombásticas de pré-campanha.
Saramago sabe que os seus livros já se vendem antes de se venderem. Em muitos casos para se pôr na estante a mostrar que se tem, em tantos outros para oferecer sem sequer o abrir.

O autor ganhou o gosto do método depois de receber o Nobel, e iniciar agora nova tournée, qual estrela rock, levando aos escuros cantos do País e do mundo a luminosidade do seu pensamento.
Saramago não escreve livros, escreve "provocações" como lhes chama.E se estivermos marimbando nas ditas? Ah, esquecia-me: andamos a dormir, sonsos, tontos, embriagados por esta sociedade que o autor descobriu estar totalmente "globalizada".
E como explicar à malta nova ou velha que apela ao voto em branco enquanto é candidato da CDU às europeias? Incongruência? Não, luxo de génio.
Mas das constatações mais admiráveis com que presenteia a nossa humilde condição é a certeza absoluta de que os jornalistas são hoje mera propriedade de empresas e da banca, "com uma impressionante capacidade camaleónica, mudando de cor consoante o sítio onde trabalham". Claro que quem fala assim fala porque nunca teve nada a ver com jornais, e a seguir ao 25 de Abril respeitou sempre as diferenças ideológicas dos que trabalhavam sob a sua alçada.
Enquanto todos se babam perante os panfletos, recordo Estocolmo, quando foi receber o Nobel e aproveitou para publicamente presentear jornalistas portugueses com a má educação, rispidez e arrogância que julgávamos só ao alcance de grandes empresários e capitalistas, pouco dados a terrenas solidariedades democráticas. Mas temos todos de compreender. Os génios, como se sabe, são impulsivos
Tenho saudades do "Memorial do Convento". De quando José era apenas escritor. Não vou ler este novo "Ensaio". E sobretudo não vou comprar. Não preciso de mostrar estantes ou dar prendas de anos. De certeza que a Saramago agradará esta minha resistência à terrífica sociedade de consumo."

Publicado por TMA em abril 13, 2004 02:26 AM
Comentários

verdadeiramente notavel.
ainda bem que ainda existem pessoas com coragem para escrever aquilo que pensam.
muitos tem a mesma opiniao, mas quem ousa criticar saramago, sob pena de ser tratado como um perfeito anormal.

Afixado por: maria joao paes em abril 15, 2004 09:04 AM

Na verdade Saramago é de facto um deslocado e poucos se atrevem a beliscar o nosso mais famoso intelectual, mas também tem toda a razão no que diz relativamente aos jornalistas que não passam, na sua maioria e por força da necessidade de manter o emprego, de meras ferramentas para empresas que apenas esperam lucros e audiências.Aliás no diz respeito ás televisões, (pequena mas mesmo muito pequena excepção para a RTP), veja-se o jornalismo que se se faz, de bradar aos céus. Nessa parte estou com o Saramago, no resto ele não me faz falta nenhuma.

Afixado por: jose santos em abril 15, 2004 10:39 AM

Primeiro, agradecimento ao doce blogue, só assim li a parte transcrita do comentário do RGC ao ensaio de Saramago. Porque é que eu nunca compro estas revistas? (ó, pá...). Subscrevo o texto e o voto em branco na compra do livro de Saramago. E mais, lucidez é comprar cada vez menos e com mais critério, de facto, não é tanto o sistema político democrático que merece ser combatido, mas este contexto consumista em que vivemos. Estranho é que isso não preocupe mais um comunista, ou não??

Afixado por: Luísa Franco em abril 22, 2004 08:56 PM