Faz hoje 11 anos que Natália Correia morreu.
Queixa das almas jovens censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"
Publicado por TMA em março 16, 2004 11:59 AMEfeméride da morte de uma grande mulher.
Repito o seu verso tão actual.
" Dão-nos marujos de papelão
.....
por isso a nossa dimensão
não é vida, nem é a morte."
Fazem-nos falta muitas Natálias.
Afixado por: Joao Norte em março 16, 2004 02:16 PMRecordo-a sempre na Assembleia da República. Inteligente. Arguta. Sem papas na língua.
Uma grande mulher! Sem dúvida! Não sabia da data... vou apontar nas minhas efemérides.
Afixado por: Lua em março 17, 2004 06:45 PMUma merecida homenagem.
Obrigado pela lembrança.
Natália, foi realmente uma grande mulher.
Recordo-me das suas intervenções na Assembleia, a maior parte delas feita em verso.
É pena que poucos se tenham lembrado dela.
E que falta nos faz alguém com ela, num espaço acada vez mais amorfo com o da AR.