Chegou hoje ao Baú da avozinha este mail assinado pelo Tiago:
"Antes de mais deixa-me dizer que lamento o que aconteceu ao Feher. Assim como lamento, e para mim é mais grave, a morte por asfixia daquelas duas crianças do Cadaval, de 2 e 13 anos. Mais grave, antes de tudo, por se tratar de crianças. Depois, pelo descrito na notícia do DN, que transcrevo literalmente: "A presidente da junta de freguesia, Idalécia Silva, afirmou que se trata de «uma família carenciada e que vive numa casa sem condições», acrescentando que «provavelmente a emergência chegou tarde demais, já que a viatura do INEM tem de percorrer 25 quilómetros - vem das Caldas da Rainha. «Se tivessem chamado primeiro os bombeiros podiam, em cinco minutos, ser atendidos no centro de saúde», disse a autarca.".
Por muito lamentável que seja a morte do Feher, estas duas mortes colocam o assunto sob uma nova perspectiva. Na minha opinião, o importante não é juntarem-se centenas ou milhares de pessoas de todos os clubes para assinar um livro de condolências ao Estádio da Luz. Seria sim que todos eles fossem até ao Cadaval, ao funeral das crianças, que fizessem páginas na web acerca da segurança doméstica, que participassem activamente na resolução de uma questão que cuja consequência regularmente ceifa vidas em Portugal. E que depois se questionassem seriamente acerca das condições em que vivem algumas famílias neste país. E do estado dos seus serviços de saúde. Porque num estádio em Guimarães há pronta assistência médica para qualquer eventualidade que surja, e ainda bem. Mas parece que no Cadaval é preciso que uma ambulância percorra 25km para assistir duas crianças. Sem mencionar outros casos ainda mais graves que eu conheço pessoalmente.
Por último, e sem querer ferir susceptibilidades, apetece-me levantar um problema que até aqui ainda não ouvi ninguém referir: não é normal que um jovem de 24 anos, sujeito a constantes aferições e exames médicos, tenha uma paragem cardíaca. Parece-me pertinente que se aborde a questão do porquê disso ter acontecido. E sem querer fazer acusações ou sequer levantar suspeitas, permito-me recordar que uma das consequências da assimilação de certas substâncias dopantes, como sejam os esteróides anabolizantes ou as anfetaminas, é precisamente a possibilidade de problemas cardíacos e, nos casos mais extremos, de morte súbita por paragem cardíaca. Repito, lamento a morte do Feher e, por isso mesmo, gostava de ver este assunto esclarecido."
Meu caro TP,
Percebo o que tentas transmitir no teu mail, e não penses que a morte das crianças não significa nada, é óbvio que significa e muito, ainda para mais para quem é pai.
Infelizmente vivemos num país que se morre das forma mais estúpidas que podem existir à face da terra, infelizmente em Portugal as pessoas morrem a serem operadas aos ouvidos, e após a autópsia, chega-se à conclusão que não possuíam nada no cérebro, como foi o caso daquela míuda no Amadora Sintra.
Infelizmente em Portugal as televisões sejam públicas ou privadas, tornaram-se em polos de sensacionalismo.
Como deves compreender não concordo com todas aquelas transmissões efectuadas directamente do estádio, ou a filmar a carreta, ou a equipa do Benfica, ou o abraço do presidente ao presidente, mas infelizmente em Portugal é assim.
Quanto à morte de Feher julgo que a dor será maior e o choque mais profundo, na medida em que milhões de pessoas assistiram em directo à sua morte, para além da sua tenra idade.
Compreenderás também que se Feher fosse do Porto, Sporting ou de outro clube choraria na mesma, apesar do sentimento ser hoje provavelmente mais forte.
Quando todos assistimos à morte de 2.000 e tal pessoas em 2001, nas Twin Towers, ficamos chocados, é evidente que vimos pessoas a saltar dos prédios, mas na realidade não as vimos morrer.
Quando em Bam morreram 40.000 pessoas, ficamos chocados, mas não as vimos morrer.
Quando morrem os nossos familiares, choramos e ficamos chocados pela sua morte, mas quantas vezes os vemos a morrer?
A diferença Tiago, reside nisto, algo que poucos terão alguma vez assistido, e que de certeza, jamais esqueceremos, a morte em directo.