Mário Rui de Carvalho no livro "Por dentro das Guerras" conta-nos toda a sua vida atrás de uma câmara a filmar guerras e catástrofes.
"...Isso não quer dizer que não tenha medo perante as situações complicadas em que me vejo regularmente envolvido...penso mesmo que é fundamental ter medo. Quando se chega ao ponto de relativizar o medo, e se tem consciência de que isso está a suceder, então é porque chegou a altura de dar um passo atrás e de proceder à reavaliação do que se passa".
"...Nos cursos de formação que tenho dado nos EUA faço sempre a mesma pergunta, e quase ninguém responde acertadamente...Numa situação de guerrilha, de combate no meio urbano, o operador de câmara vai pela rua abaixo a filmar. De que lado deve seguir, que passeio deve escolher? O auditório encolhe os ombros e eu digo, alto e bom som: é sempre do lado esquerdo...nesta actividade não há canhotos, a câmara foi feita para andar sempre no ombro direito, em caso de necessidade é possível encontrar uma porta, um abrigo...o corpo fica protegido e só a câmara é que fica exposta às balas."
"...sempre foi prática da CBS envolver naturais dos países onde estávamos no nosso trabalho".
Estas três passagens, demonstram o seu carácter humano, o profissionalismo e experiência de Mário Rui e da CBS. Quando após algumas semanas, Portugal enfrentou pela primeira vez, um situação de alto risco com dois dos seus jornalistas, eu escrevi que os mesmos tomaram a atitude de entrar no Iraque por que somos um povo de aventureiros. Mário Rui no seu livro, demonstra-nos a profissionalização de um jornalista de guerra, ele que enfrentou a guerra da Guiné de arma em punho como comando do exército português, enfrentou depois, guerras de toda a espécie, as convencionais, as de guerrilhas, e mesmo de casa-a-casa, rua-a-rua, como no Haiti. Mas, a imagem que mais me marca no seu livro é o relato da sua passagem por Armero e a catástrofe de 1985 com a erupção do Nevado del Ruiz.
"...Estou de joelhos, estou presa, o meu nome é Omarya Sanchéz, tenho 12 anos. Estou de joelhos, tenho as pernas presas, não me consigo mexer. É a minha tia, que estava comigo. Está morta e está entalada nas minhas pernas"..."Fui ver de novo a Omarya, já estavam os bombeiros a tentar tirá-la...Omarya entrou em estado de choque linfático e acabou por morrer após 36 horas de sofrimento...a mémória de Omarya ficou comigo, até hoje. Nunca mais me esquecerei de Omarya".
Na semana passada, Mário Rui tinha escrito um excelente artigo no jornal Público, ((que infelizmente não o tem na sua página online) onde falava da sua experiência e da forma como as empresas de comunicação em Portugal não têm cuidados redobrados com os seus correspondentes em locais de conflito. Fiquei ainda mais esclarecido depois de ler este livro de Mário Rui de Carvalho com a colaboração de Luís Costa.